Pra não dizer que não falei de tiriricas
Se os humoristas são proibidos de fazer humor político, como os políticos podem concorrer com os humoristas no horário político ?
Com pedido de desculpas ao Geraldo Vandré, vamos à paranóia de hoje. Lulla é o Tiririca que deu certo. Tiririca é o Lulla que não vai dar certo. Há uma diferença essencial entre ambos os tiriricas. Tiririca finge de ignorante e fala a verdade, por isso vai perder, ainda que ganhe. Lulla orgulha-se da ignorância, não fala a verdade e por isso ganha mesmo perdendo, como perdeu em São Paulo, Capital e Estado, treze (13) eleições majoritárias seguidas. Lulla é o “PresiMente”. Cito poema de Affonso Romano de Sant´Anna.
“A implosão da mentira.
É um presidente que mente, mente de corpo e alma, completamente.
E mente de maneira tão pungente / que a gente acha que ele mente sinceramente.
Mas que mente sobretudo impunemente… / E mente tão nacionalmente,
que acha que mentindo história afora / vai nos enganar eternamente”.
Tiririca é “uma das piores ervas daninhas que existe”, segundo o Houaiss. É também um cômico de tevê, não sei se faz sucesso, mas sobrevive também em espetáculos de circos.
Diria que é um palhaço, se não achasse a profissão uma arte do maior respeito, que nos legou figuras imortais como Arrelia, Piolim, Carequinha. Tiririca não é um deles.
Tiririca está aí como candidato a deputado federal por São Paulo e sua plataforma política é honesta. “Você sabe o que um deputado federal faz?”, indaga na sua campanha. E responde: “Eu também não sei, mas vote em mim que vou lá e te conto. Vote em Tiririca, pior do que está não fica”.
É das poucas verdades que vi em toda a campanha. Virou queridinho da mídia. Mas fica pior, sim.
Tiririca está no partido 22, desculpe, nem sei o nome mas sei as letras escritas com tinta invisível. É o partido do Waldemar Costa Neto, o Boy, aquele que vendeu o PL ao PT, com o vice José Alencar de contrapeso, por 10 milhões de reais e entregou só 6 milhões ao partido, confirmando as declarações da sua ex, uma ex-granfina que disse que o “Boy ficava com 40% de tudo, até dos 2 milhões de dólares que trouxe da Coreia (ou da China, não lembro), para a campanha de 2002 do Lulla”.
Boy, no quarto de uma casa, vendia o PL e o vice Alencar ao Zé Dirceu por 10 milhões de reais, conforme Roberto Jefferson cansou de denunciar. No outro quarto, Lulla jura até hoje que “não viu nada nem sabia de nada”. Rarará.
O 22 é partido da “base” do Lulla, da Dillma, do Mercadante, da Martaxa Relaxa e Goza e do encenador Suplicy, que aconselha voto na Mulher Pera – esses sim, verdadeiros tiriricas, no s entido amplo, geral e irrestrito do Houaiss. O sentido fulanizado é o do cômico que, esperto ou esquecido, não menciona quem integra a sua troupe, no espetáculo circense que nos é oferecido diariamente pelo horário político.
(Uma dúvida entre parênteses. Abre. Se os humoristas são censurados e proibidos de fazer humor político, como os políticos podem concorrer com os humoristas, roubando-lhes
a profissão no horário político ? Humoristas profissionais do Rio já protestaram. Fecha.)
Um voto no Tiririca, de um gozador que votaria no Cacareco, Macaco Tião ou no Cacique Juruna só para tirar sarro, pode enriquecer a legenda do 22 e eleger o Boy, ou o Agnaldo Timóteo, que promete “continuar a obra do Clodovil”, o que quer que isso signifique. Esse mesmo voto reforçará, talvez sem saber, a “base” do Lulla, da Dillma, do Mercadante, da Martaxa Relaxa e Goza, do Suplicy. Será voto enrustido no petismo.
Colunistas do Bem e Politicamente Corretos – não é o meu caso –, como Guzzo, da Veja, e o professor Gaudêncio Torquato, do Estadão, afiaram seus teclados (velhinhos como eu, não mais afiam penas, letais como espadas samurais, mas teclados, como eu) na denúncia da supersafra de Tiriricas nas eleições de outubro. Maguila, Ronaldo Esper, Netinho, Marcelinho Carioca, Romário, Mulher Melancia, Mulher Pera, Mulher Maçã, Moacir Franco, Levy Fidelix, para citar de memória menos de uma dúzia dos indigitados.
Há dezenas, são exemplos do destempero eleitoral. Serão mesmo? Há controvérsias.
Isso sem contar as tiririquinhas, granfininhas de ex-querda da USP, que juram uma revolução mundial se você votar no Pstu. Olha que nem mencionei a Marina.
Meus cumpanheros da crasse mérdia econômica, cada vez mais pobre, e da crasse mérdia intelectual, mais perdida do que cego em tiroteio, indignam-se com o horário eleitoral. “Eles” não valem nada, sentenciam. “Eles”? Enganam-se. Nós, é o correto.
Esse horário é um espelho do que somos. Reflete-nos à perfeição. Ao nos identificarmos nele, ficamos indignados não com o que vemos, já que vemos o que somos. Mas com “eles”, os “outros”, o nosso reflexo.
Freud explica. Os Beatles profetizaram: I´m you / You´re me / And we´re all together…
Somos um país de “mais de 80%” de tiriricas. Não me admira que Lulla, Dillma, Mercadante, Martaxa Relaxa e Goza, Suplicy, o novo-velho Enéas “Meu nome é Plííínioooo”, Skaf no Psb (!), pedindo voto para Moacir Franco, sejam a cara escrita e escarrada do vero Tiririca.
A diferença, repito, é que o Tiririca cômico foi o único a falar a verdade.
EU NÃO SOU UM DELLES.
SOU ZELITE.
Neil mata mato Ferreira
Diário do Comércio – Opinião – 26/8/2010

Floriano Pesaro
São Paulo, SP, Brasil
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Floriano, parabéns pelo texto. Vim também convidar vc pra ler o meu, de título semelhante. Este seu é o segundo que encontro de autores que pensaram quase o mesmo título. Orgulho-me de estar na lista dos que não deixaram de falar em Tiririca, enfim, é assunto sério e nacional.