Uma abordagem original sobre política
Francisco Weffort é um dos mais renomados representantes da ciência política no Brasil. Essa afirmação pode ser comprovada no livro Formação do pensamento político brasileiro – Idéias e personagens, recentemente lançado. Nele, Weffort, que já brindara há alguns anos os estudiosos da matéria com a organização dos dois volumes de Os Clássicos da Política, apresenta os principais personagens históricos que contribuíram para a criação e consolidação das bases teóricas que almejam explicar o que é o Brasil e seu povo. Sob esse aspecto, o autor trata das contribuições fundamentais de nomes como Manuel da Nóbrega, Joaquim Nabuco, Antônio Vieira, Gilberto Freyre, D. João VI, D. Pedro II, Oliveira Viana, José Bonifácio, Caio Prado Jr., Helio Jaguaribe e Juscelino Kubitschek, entre outros.
Professor titular aposentado do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo, Francisco Weffort foi Ministro da Cultura na gestão de Fernando Henrique Cardoso e atualmente é pesquisador do IEPES (Instituto de Estudos de Políticas Econômicas e Sociais) e professor visitante do IFCS/UFRJ (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro).
A ENTREVISTA
Boletim Ática: Fale de sua carreira acadêmica e das atividades públicas e políticas que exerceu.
Francisco Weffort: Sou formado em ciências sociais e tenho doutorado em ciência política. Fui titular da cadeira de ciência política da Universidade de São Paulo.
Geralmente, quem estuda política também tem a tentação de fazer política, então cheguei a participar de atividades e militâncias políticas durante o regime militar. Participei da formação do Partido dos Trabalhadores. Fui Ministro da Cultura do governo Fernando Henrique Cardoso.
Meus interesses de estudo, pesquisa, leitura, andam todos pelo caminho da história e da política. Tenho estudos sobre populismo publicados em livro e revistas, e outros sobre o movimento operário e o movimento sindical. Recentemente me dediquei a esse esforço, a essa aventura de estudar a história das idéias no Brasil, com a convicção de que o passado vai passando, mas ainda não passou.
Boletim Ática: Este Formação do pensamento político brasileiro possui algum elo com outro título seu, Os Clássicos da Política? Há algum sentido de continuidade entre os dois trabalhos?
Weffort: Tem muito a ver, embora não seja uma continuação. Acho Os Clássicos da Política extremamente interessante, expressa uma forte experiência didática – minha e de meus colegas da USP – na apresentação da teoria política clássica. Na verdade, o que chamamos de teoria política clássica é a teoria política européia e um pouco da teoria política americana. Quer dizer, vem desde Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, chegando até Marx e passando por Hegel e Montesquieu.
Formação do pensamento político brasileiro tem uma relação com Os Clássicos da Política, porém mais de diferença do que de semelhança. Formação, em primeiro lugar, é autoral, não uma coletânea; ele contrasta com Os Clássicos porque a formação do pensamento político brasileiro é um processo original confrontado com a formação do pensamento político europeu.
Um tema central, no nosso caso, é o descobrimento por parte do pensamento ou dos pensadores da “existência do povo”. Desde Manuel da Nóbrega e Antônio Vieira, percebe-se uma grande surpresa por parte dos povoadores e dos bandeirantes diante da existência dos índios.
A peculiaridade no pensamento político brasileiro, como extensão do pensamento ibérico, é esse espanto diante da “nova humanidade” que foi revelada ao mundo pelos descobrimentos. Isso não está no pensamento clássico europeu: de partida, eles sabem quem é o povo, ou imaginam saber. No nosso pensamento, está a descoberta de nós por nós mesmos.
Boletim Ática: O senhor entende essa originalidade como algo relevante para além das fronteiras e da história do Brasil?
Weffort: Sem dúvida. Ela é relevante em toda a América em seu sentido mais geral. Mas eu diria que é muito mais relevante particularmente na história da América Latina. Até hoje o México tem na sua cultura o trauma da origem, com a chegada de Hernán Cortés e a queda da civilização asteca. No Peru, a mesma coisa acontece em relação aos incas, com repercussões no terreno da política atual. Vários países da América Latina apresentam este drama de maneiras diversas.
Boletim Ática: Todos os intérpretes do Brasil mencionados no livro são, obviamente, relevantes. Mas quais aqueles que podem ser considerados centrais para a explicação do que é o povo brasileiro?
Weffort: Citaria três intérpretes: Joaquim Nabuco, no século XIX; Gilberto Freyre e Oliveira Viana, no século XX. São três personagens bem diferentes, mas que contribuem para uma visão da qual se pode divergir, mas que são visões muito centrais do Brasil.
Nabuco é uma figura importantíssima, não apenas porque contribuiu para a abolição da escravatura, mas porque ele terá sido talvez o primeiro na elite brasileira a dizer: os negros nos deram um povo – o que é uma coisa fortíssima.
Gilberto Freyre tem uma visão do Brasil dos anos 1930 que é quase revolucionária, porque ele oferece ao país a obra Casa Grande & Senzala, uma bomba na convicção racista predominante entre os intelectuais brasileiros desde meados do século XIX, com exceção de Nabuco e de uma minoria.
No caso de Oliveira Viana, ele próprio racista, nos dá uma contribuição para o entendimento da sociedade brasileira a partir do fenômeno do latifúndio. Ele apresenta uma visão da sociedade brasileira que leva muito do que o Brasil é hoje. Existem muitos que praticam a teoria de Oliveira Viana, um corporativismo que foi incorporado no período de Getúlio Vargas ao Estado brasileiro atual.
Boletim Ática: Como os leitores de Formação do pensamento político brasileiro podem aproveitar os estudos e as informações do livro para refletir sobre o cenário político do país neste início de século XXI?
Weffort: As figuras formadoras do pensamento político brasileiro formularam basicamente as mesmas perguntas sobre a nossa sociedade, mas criaram uma maneira de vê-la que pertence a nós, seja qual for a pergunta que cada um se faça. Reelaborando em torno do mesmo tema, qualquer que seja a opinião política que se tenha sobre esse início de século no Brasil, creio que todos poderão concordar que esse é um período de ampla democratização da política e da sociedade no Brasil.
Com tudo o que o Brasil tem de desigual, de injusto, digo que há uma democratização. O país se democratiza no sentido político de que se abre a esse pouco que todas as elites passadas, até os anos 1930, tentaram ignorar.
Este povo que está emergindo tem uma cara que ainda não mostrou completamente. Dou um exemplo disso: a última eleição presidencial foi uma surpresa para o Brasil. Ninguém imaginava que esse país tão hierárquico – e ele é hierárquico desde o início e continua sendo – elegesse um sujeito de origem operária como presidente da República. Do ponto de vista sociológico e político, foi admirável.
Espero ter podido passar pelas páginas deste livro a idéia de que esse país sempre teve idéias, sempre teve projetos, sempre teve propostas, certas ou erradas, a respeito do que deve ser o presente e do que deve ser o futuro. Esse país sempre teve uma projeção de futuro e projetos para o futuro. Estamos em um processo de desenvolvimento social e político que apresenta um povo surpreendente. É extraordinário como nós nos surpreendemos com o desenvolvimento do povo brasileiro, por maiores que sejam os problemas que tenhamos hoje. É isso que eu gostaria de transmitir, essa esperança.
http://www.atica.com.br/images/entrevistas/weffort.pdf
http://www.atica.com.br/videos/weffort.aspx

Floriano Pesaro
São Paulo, SP, Brazil
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